
Numa semana em que mal tenho tempo para me dedicar ás coisas que gosto, arranjo só um tempinho para falar no último filme que deixou as minhas necessidades cinéfilas completamente preenchidas, ou melhor, extasiadas.
Naked, é um filme que Mike Leigh realizou em 1993 e é, quanto a mim, um dos melhores filmes da década de 90, com um lugar bastante alto se reduzirmos a amostra ao velho continente.
A história é bastante simples. Johnny (David Thewlis) foge de Manchester para Londres, em busca da sua ex-namorada Louise (Leslie Sharp), após uma relação sexual que deu para o torto. E basicamente, é esta a história.
No entanto, todo o filme está cheio de encontros de Johnny com diversas personagens, todas elas excêntricas á sua maneira. Todas essas personagens obtêm representações ao mais alto nível, como por exemplo, o bastante jovem Ewen Bremner (o Spud de Trainspotting), que dá vida a Archie, ou então Katrin Cartlidge, a Sophie, uma viciada em heroína que desespera por ser amada.
Se todas as personagens estão bem representadas, a cereja no topo do bolo vai mesmo para David Thewlis, com uma intrepretação grandiosa, que nos faz ter a certeza que existem muitos lobbies, na indústria e nos prémios atribuídos (olá Oscars), pois esta interpretação é das melhores que vi em fita.
Johnny é um anti-heroi, tão céptico como crente, tão apaixonado como destrutivo. Negativista e irónico, depressivo ou retórico. Espelha dúvidas e avança com teorias. Aprecia clássicos de leitura. E a bíblia também...
Mike Leigh, quase não definiu um guião, e grande parte do filme foi baseado em improviso, resultando num character study visceral, que foge a todos os lugares comuns, atente-se no facto de Leigh filmar bastantes cenas-chave em escadas, lugares que são considerados não-lugares.
Naked, é um filme obrigatório e infelizmente bastante, e reforço o bastante, ignorado.